A inteligência artificial começa a avançar na logística e a ocupar espaço em decisões cada vez mais próximas da operação. Antes, porém, de algoritmos assumirem tarefas complexas, empresas de transporte e operadores logísticos enfrentam um desafio mais básico: organizar e integrar os dados que sustentam as atividades.
A questão também ganha relevância nos portos. No acesso aos terminais, informações sobre disponibilidade de caminhões, documentação, horários de atendimento e fluxo de veículos precisam estar conectadas para que a tecnologia consiga identificar gargalos, antecipar problemas e reduzir o tempo de espera.
Segundo a consultoria Gartner, até o fim de 2026, 40% das aplicações corporativas deverão contar com agentes de inteligência artificial integrados, ampliando a capacidade dos softwares de interpretar informações, automatizar processos e apoiar decisões em tempo real.
No transporte rodoviário, responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no Brasil, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), um dos dados mais importantes para essa transformação é saber quais veículos estão efetivamente disponíveis para operar.
Para o CEO da Gestran, Paulo Raymundi, a qualidade dessas informações será determinante para que a inteligência artificial produza resultados concretos.
“A tecnologia só consegue apoiar decisões quando entende a realidade da operação. Recomendar rotas, redistribuir veículos ou antecipar gargalos depende da qualidade dos dados disponíveis sobre a frota. Se as informações sobre a disponibilidade dos veículos não refletem a realidade, qualquer recomendação parte de um cenário incompleto”, afirma.
Do caminhão ao porto
A localização do veículo é apenas uma das informações necessárias para a tomada de decisão. Um caminhão pode aparecer como ativo em um sistema de rastreamento e, ao mesmo tempo, estar parado para manutenção, aguardando motorista, envolvido em um sinistro ou submetido a alguma restrição operacional.
Segundo Raymundi, o problema é que esses dados ainda costumam estar distribuídos entre diferentes sistemas, planilhas e canais de comunicação.
“Hoje, praticamente toda transportadora possui rastreamento, sistemas de manutenção e diferentes controles operacionais. O problema é que essas informações costumam estar separadas. O gestor sabe onde está o caminhão, mas nem sempre sabe se ele está disponível para operar”, afirma.
Essa fragmentação ganha peso quando o caminhão entra no ambiente portuário. A disponibilidade da frota precisa estar integrada à programação de embarques e às janelas de atendimento dos terminais para evitar que veículos sejam direcionados a operações que não podem ser realizadas naquele momento.
O Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Cargas do Litoral Paulista (Sindisan) aponta o agendamento e o fluxo de veículos em pontos críticos, como o acesso ao Porto de Santos, entre os gargalos em que a integração de dados já apresenta resultados práticos.
Segundo a entidade, sistemas de agendamento permitem cruzar informações sobre a frota disponível com as janelas de atendimento dos terminais, contribuindo para reduzir o tempo de espera e a ociosidade dos caminhões.
A lógica é simples: quanto mais dados operacionais puderem ser integrados, menor será a necessidade de decisões baseadas em informações fragmentadas ou desatualizadas.
Base confiável
A integração também é considerada uma etapa anterior à adoção de aplicações mais sofisticadas de inteligência artificial.
Na avaliação do Sindisan, a tecnologia só entrega valor quando encontra uma base de informações confiável. Isso significa conhecer não apenas quais veículos estão cadastrados no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC), mas quais estão documentados, disponíveis e efetivamente aptos a realizar uma operação.
O diagnóstico é semelhante ao apresentado pela Gestran. A empresa desenvolveu um módulo de Disponibilidade da Frota que reúne dados de rastreamento, manutenção, ocorrências e comunicação para indicar, em tempo real, a capacidade operacional efetiva dos veículos.
“A tecnologia reúne informações que já fazem parte da rotina operacional da plataforma, como rastreamento, manutenção, ocorrências e comunicação, para mostrar, em tempo real, quais veículos estão aptos para operar e qual é a capacidade operacional efetiva da frota”, explica Raymundi.
A plataforma também atualiza o status do veículo a partir das informações enviadas pelos motoristas. Quando um caminhão entra em manutenção ou registra uma ocorrência que o torna indisponível, sua condição operacional é alterada. Ao retornar à atividade, volta a integrar a capacidade disponível.
Próximo passo
A integração dos dados muda a própria função dos sistemas de gestão. Em vez de apenas registrar onde estão os ativos, as plataformas passam a oferecer uma visão sobre o que a operação pode realizar naquele momento.
Esse movimento tende a ganhar importância à medida que portos, transportadoras e outros elos da cadeia logística avancem na digitalização de seus processos.
Na Europa, a adoção está mais avançada. Segundo o relatório Connected Fleets in Europe 2026, da Geotab, 72% das frotas analisadas utilizam inteligência de localização em tempo quase real e 64% recorrem à inteligência artificial para otimizar rotas e reduzir gargalos.
No Brasil, o desafio ainda está na consolidação dessa infraestrutura de dados. O país reúne mais de 1 milhão de transportadores entre empresas, cooperativas e autônomos, segundo o RNTRC, formando uma operação extensa e pulverizada.
Para Raymundi, a tendência é que o gestor deixe de gastar tempo procurando informações em diferentes sistemas e passe a receber respostas diretamente da plataforma.
“A disponibilidade da frota é um dos primeiros indicadores a seguir esse caminho”, conclui.
Fonte: BE News




