Move Brasil atrela financiamento à renovação da frota e à redução de emissões

O anúncio do programa Move Brasil foi recebido de forma positiva por agentes ligados à sustentabilidade e à transição climática no transporte. Apresentada pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, a iniciativa prevê R$ 10 bilhões em linhas de crédito para a renovação da frota de caminhões no país, com condições financeiras atreladas a critérios ambientais.

A proposta busca acelerar a modernização logística, reduzir emissões e ampliar a inclusão produtiva, ao vincular juros mais baixos à substituição de veículos antigos por modelos mais eficientes.

A medida também reforça o papel das políticas públicas como indutoras da descarbonização em um dos setores historicamente mais intensivos em emissões de gases de efeito estufa.

 

Financiamento como instrumento de política climática

No transporte rodoviário de cargas, a maior parte das emissões está concentrada no chamado Escopo 3 — a cadeia de valor — do Protocolo GHG, padrão global utilizado por empresas e governos para medir e reportar emissões. Dados do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) indicam que esse escopo figura entre os principais desafios atuais da agenda climática.

Para Odair Rodrigues, CEO da B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, o Move Brasil representa um avanço relevante ao alinhar política industrial, financiamento público e combate às mudanças climáticas.

“Ao vincular crédito mais barato a critérios de sustentabilidade e à retirada de veículos antigos de circulação, o governo começa a tratar a transição climática como política econômica e não apenas ambiental”, avalia.

 

Estrutura do programa e foco em caminhoneiros

Operado integralmente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o programa contará com R$ 6 bilhões em recursos do Tesouro Nacional e R$ 4 bilhões do próprio banco. Do total, R$ 1 bilhão será destinado exclusivamente a caminhoneiros autônomos e cooperados.

O objetivo é estimular a substituição de caminhões antigos por modelos mais eficientes, com destaque para veículos elétricos ou movidos a biometano, que terão acesso a taxas de juros mais baixas. O financiamento também contempla caminhões novos e seminovos que atendam aos requisitos ambientais do Proconve 7, desde que fabricados a partir de 2012.

O programa prevê ainda benefícios adicionais para quem entregar veículos antigos para desmonte. Para isso, o caminhão deve estar em condições de rodagem, com licenciamento regular a partir de 2024 e mais de 20 anos de emplacamento original.

A baixa definitiva no órgão de trânsito e a entrega à empresa de desmontagem deverão ser comprovadas à instituição financeira em até 180 dias após a liberação do crédito.

 

Prazos, regras e impacto estrutural

De acordo com a regulamentação aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), os financiamentos poderão ter prazo de até 60 meses, com carência de até seis meses para o início do pagamento, sem capitalização de juros no período. As solicitações poderão ser protocoladas até 30 de junho de 2026.

Na avaliação de Rodrigues, a relevância do Move Brasil vai além da renovação da frota. Segundo ele, o programa cria um precedente ao usar o sistema financeiro como instrumento de indução de comportamentos ambientalmente responsáveis.

“Medidas como essa ajudam a reduzir emissões na origem e diminuem a pressão futura sobre mecanismos de compensação. O mercado de carbono funciona melhor quando vem acompanhado de políticas públicas que atacam diretamente as fontes de poluição”, afirma.

O executivo acrescenta que iniciativas desse tipo contribuem para organizar dados, padrões e critérios ambientais, elementos essenciais para dar escala e credibilidade ao mercado de carbono regulado no Brasil. “A crise climática exige ações estruturais, e o Move Brasil mostra que é possível alinhar desenvolvimento econômico, política industrial e responsabilidade climática”, conclui.

 

Fonte: Transporte Moderno

Governo lança oficialmente o Move Brasil, programa para renovar a frota de caminhões

O governo federal lançou oficialmente nesta quinta-feira (8) o programa Move Brasil para a renovação da frota brasileira de caminhões e à redução de emissões no transporte rodoviário de cargas. A iniciativa, apresentada pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, prevê a oferta de R$ 10 bilhões em linhas de crédito, operadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para a aquisição de veículos novos e seminovos fabricados no país. Do total de recursos, R$ 1 bilhão será reservado exclusivamente a caminhoneiros autônomos e cooperativados, segmento que concentra parte relevante da frota mais antiga em circulação no Brasil. O objetivo do programa é estimular a eficiência logística, aumentar a segurança nas rodovias e acelerar a substituição de caminhões com mais de duas décadas de uso.

“Isso é importante para o meio ambiente, para a saúde pública e para a economia, porque retira de circulação veículos antigos que poluem mais, coloca caminhões novos e mais seguros nas estradas e ajuda a preservar empregos, além de estimular a indústria e o comércio nacional”, afirmou Alckmin durante visita à concessionária Nasa Caminhões e Ônibus, em Brasília, acompanhado do presidente e CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Roberto Cortes. As bases do Move Brasil foram estabelecidas por medida provisória publicada em dezembro, que autorizou a destinação de recursos do Tesouro Nacional para linhas de crédito de renovação da frota. Em seguida, o MDIC definiu, por portaria, os critérios de conteúdo local, sustentabilidade e reciclagem dos veículos financiados. Coube ao Conselho Monetário Nacional (CMN) fixar as condições financeiras das operações.

 

Limite de R$ 50 milhões por beneficiário

Pelas regras do programa, o limite de financiamento será de até R$ 50 milhões por beneficiário, com prazo máximo de cinco anos e carência de até seis meses. As taxas de juros anuais variam entre 13% e 14%, conforme a classificação de risco do tomador, já incluídos custos financeiros e spread bancário. As operações poderão contar com cobertura do Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), que assegura garantias de até 80% do valor financiado, além da possibilidade de inclusão de seguro do bem e seguro prestamista. O financiamento de caminhões novos será restrito a veículos de fabricação nacional, em linha com as diretrizes da Nova Indústria Brasil, política industrial do governo que busca fortalecer cadeias produtivas, ampliar o conteúdo tecnológico e gerar emprego e renda no país.

Para os seminovos, serão elegíveis apenas caminhões fabricados a partir de 2012, desde que comprovem conteúdo local e atendam aos critérios ambientais definidos pelo MDIC. Nesse caso, o acesso ao crédito ficará restrito a caminhoneiros autônomos e pessoas físicas vinculadas a cooperativas. Do ponto de vista ambiental, os caminhões novos deverão atender à fase P8 do Proconve, padrão mais recente de emissões, enquanto os seminovos precisarão cumprir, no mínimo, a fase P7. O programa também prevê condições mais vantajosas para quem entregar um caminhão antigo como contrapartida, exigindo a baixa definitiva do veículo no órgão de trânsito e seu encaminhamento para desmontagem.

 

Efeito limitado para o mercado de usados

A avaliação do mercado de veículos usados é de que os efeitos diretos do programa tendem a ser limitados. Para o presidente da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), Everton Fernandes, embora o crédito subsidiado facilite a compra de caminhões novos, muitos caminhoneiros autônomos enfrentam dificuldades para comprovar renda e acessar financiamentos em bancos públicos. Segundo ele, o setor de usados pesados depende, em grande parte, da renovação periódica de frotas por grandes empresas. “Se o benefício for aproveitado pelas transportadoras com frota própria, a venda de caminhões seminovos e usados pode se beneficiar indiretamente, com maior oferta de veículos no mercado”, afirma Fernandes.

Na avaliação dos bancos das montadoras, o programa tem mérito, mas não enfrenta o problema estrutural do setor. Para Enilson Sales, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), o Move Brasil ajuda a aliviar pressões de curto prazo, mas não resolve o impacto da elevada carga tributária sobre veículos pesados no Brasil. “O esforço do MDIC é louvável e vai aquecer o mercado temporariamente, mas é um enxuga-gelo. O problema começa com uma carga tributária de cerca de 44% sobre esses bens”, afirma. Segundo ele, enquanto o país mantiver um modelo de transporte fortemente baseado no modal rodoviário, sem revisão da tributação e maior integração com outros modais, iniciativas de crédito tendem a ter efeito limitado no tempo.

A indústria já começou a operar o programa. A rede de concessionárias da Volkswagen Caminhões e Ônibus, por exemplo, passou a oferecer o financiamento do Move Brasil para caminhões novos e seminovos elegíveis, com prazos de até 60 meses, carência de até seis meses e possibilidade de financiamento integral do bem. Segundo a montadora, condições mais atrativas estão disponíveis para clientes que entregarem veículos com mais de 20 anos ou optarem por modelos com menor impacto ambiental, como os movidos a biometano ou eletricidade.

 

Fonte: Transporte Moderno